https://www.google.com/adsense/new/u/0/pub-3159886379608766/home Pega o Mapa!: O textão de despedida

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

O textão de despedida

** Texto começado na minha última semana a bordo e finalizado em casa**

Seis meses a bordo e a palavra é exaustão. O corpo precisa descansar. As pernas doem muito e os joelhos não são mais os mesmos. Hora de voltar para casa. Hora de deixar a outra casa para trás.

Depois de 6 meses, o navio se torna a nossa casa. Aquelas pessoas com costumes e línguas tão diferentes se tornam a nossa família, e são elas que irão enxugar nossas lágrimas e nos dizer para não desistirmos, que aquele foi só um dia ruim e que "amanhã é dia de porto e vai ser lindo!"

Morar em um navio não é tão simples. Sabe aquela hora que você desce ali na padaria rapidinho porque a fome bateu? Ou aquela lanchonete que você liga tarde da noite só porque deu vontade? Nada disso existe. O que existe é hora para comer a comida que está disponível no menu de hoje. E pode não ser a hora da sua fome, e raramente será a comida que você gosta. Mas depois de alguns meses, você aprende a levar escondido comida para a cabine, e até pro trabalho. Você sorri com uma gratidão genuína quando sua colega chinesa da pizzaria te ajeita, escondido, um pedaço de pizza dos passageiros, ou quando o filipino que trabalha de frente pra sua loja enche seu copo de sorvete e só te cobra por uma bola. Morar em um navio é parceria.

Conviver a bordo é ser gentil sem esperar nada em troca, principalmente com aqueles que você sabe que tem uma vida mais difícil do que a sua, trabalham mais e manda praticamente todo o dinheiro para casa. Nas lojas, não somos autorizados a dar mais de 20% de desconto aos tripulantes, mas não custa nada avisar ao cara da cozinha que aquele RayBan que ele gostou, agora está na promoção, ou levar o relógio do seu amigo do bar pra acertar, já que ele foi mexer no fuso horário, desconfigurou tudo e não tem tempo de sair. Mas você não precisa sair sorrindo pelos corredores, pra todo mundo, ou vão achar que você é louca (e os indianos sempre vão pensar que você está dando mole pra eles). Com o tempo, você percebe quem são as pessoas realmente legais com quem você pode se relacionar. Com o tempo você faz amigos que nunca imaginou que faria.

É incrível a capacidade humana de adaptação e prova disso são as nossas cabines. Para quem não sabe, as cabines de tripulantes variam de tamanho, entre pequenas e minúsculas. No começo é bem estranho, você olha e pensa "não vai caber". Depois você se acostuma, e é claro que ela poderia ser um pouquinho maior, mas na verdade você não precisa muito mais do que aquilo. Dia de fazer a mala cabe você e sua mala aberta no chão, e quem quiser entrar tem que aprender a voar. E você se lembra das festinha na cabine e se dá conta de que ainda não sabe como coube tanta gente ali.

Trabalhar a bordo é descobrir uma coisa nova todos os dias: um caminho diferente pelas entranhas do navio que você nunca tinha usado, um esquema novo que te ajude a melhorar sua comida ou seu trabalho, ou até ajeitar a ducha do seu chuveiro, e essas coisas só se descobrem convivendo com quem já está ali há mais tempo. Se você é tripulante de primeira viagem, não tente descobrir tudo sozinho, não viva sozinho, não seja essa pessoa!

Meu primeiro contrato não poderia ter sido mais maravilhoso! Aprendi muito, cada detalhe do que é a operação de um conjunto de lojas a bordo de um navio. Fiz minha especialização em jóias e eu, que não tenho alma de vendedora, percebi que vender diamantes, rubis e esmeraldas não era, afinal, tão difícil assim.

Conheci pessoas incríveis, que sei que muito provavelmente nunca mais vou voltar a ver. Essa é, sem dúvidas, uma das partes mais difíceis do trabalho. Toda semana nos despedimos de alguém, e algumas semanas são mais difíceis do que as outras... Até que chega aquela semana em que as pessoas se despedem de você. Essa semana é bem feliz. Existe um sorriso muito particular no rosto de um tripulante que está desembarcando. Você olha pra cara dele e diz "vai entrar de férias, né?" E ele sorri. Eu sorri a semana inteira.

Apesar das despedidas, de certa forma, acredito que todo mundo que viaje com alguma frequência tenha uma certa facilidade em se desapegar das pessoas, ou de sentir menos a falta delas. Ninguém aqui morre de chorar por se despedir de alguém. É ruim saber que nunca mais vamos ver essas pessoas? Claro! Vamos sentir a falta delas? Com toda certeza! Seguimos com a nossa vida no dia seguinte como se nada tivesse acontecido? Sim! Como se costuma dizer a bordo: “It’s ship life...” Faz parte da vida a bordo. Se você não lida com isso com naturalidade, a vida a bordo pode não ser pra você...


Foram 4 meses de Alaska, 3 semanas de Califórnia, 24 dias de travessia pelo Pacífico e 18 dias de Austrália. Lugares que eu sempre quis conhecer e outros que nunca tinha ouvido falar.

A ultima semana é a mais corrida. Ansiedade não só por voltar pra casa, mas também por fazer as malas (será que vai caber? Será que o peso vai passar?). Uma mala despachada, uma de mão, uma mochila e um unicórnio gigante. Ahhh esse inferno de unicórnio! (Pra quem perdeu a ~incrível~ história do unicórnio, está aqui). Foram mais de 35 horas de voo entre Sidney e Vitória, com escalas em Bangkok, Dubai e Guarulhos. Uma das comissárias australianas pediu pra tirar foto com o meu bicho de pelúcia que já ocupava metade de um bagageiro, e me contou tudo sobre como ela era apaixonada por eles desde criança, e no final me mostrou até a capa do seu celular, que era de unicórnio. Se ela não fosse tão linda eu até sentiria um pouco de pena dela... “Você precisa dar um nome pra ele!” Eu ri. “É um presente pra minha afilhada, ela chama de ‘Umicórnio, com M, e tá mais ansiosa pela chegada dele do que pela minha.”

Foram cerca de 35 horas de vôo. Estamos exaustos, acabados e precisando de um banho, eu e Umicórnio. Mas finalmente, estamos em casa.

unicornio dos minions

2 comentários:

  1. Welcome back dear! Doida pra saber qual vai ser sua próxima aventura. Até lá keep in touch.

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    1. Ainda nao recebi minha próxima missão, hahaha! Mas deve ser depois de março. Virei aqui contar :) Obrigada pelo carinho de sempre, Maria Clara! Beijos!

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